Após o forte som da batida de um cajado na madeira velha do palco, a Gula saiu com uma ânsia clara de continuar falando e com um sorriso no rosto de quem venceu uma batalha, talvez foi a primeira a perceber o que ia acontecer. Talvez só estivesse, ela também, sendo influenciada pelo Orgulho.
O próximo pecado entrou com roupas que pareciam de grife, mas que algo fortemente me dizia que não era e com jóias dos mais variados tipos.
Avareza: Eu sou o criador e o filho do capitalismo. Sou a avareza, o desejo de riqueza, sou o egoísmo. Grandes líderes conhecem-me como conhecem a palma da própria mão. Certamente, dominei outros séculos. Inventei o colonialismo, o acúmulo de riquezas. Depois, para satisfazer aos meus desejos, inventaram a poupança. Para brincar com meus talentos, inventaram a loteria e eles gastam e gastam e enriquecem outro alguém, servindo a mim. O Agiota é meu profeta. Alguns homens travaram guerras, mudaram povos, para que minha palavra fosse proferida. Petróleo. Quem quer petróleo? Você não quer petróleo, beata? Aposto que quer. Aposto que qualquer um aqui quer.
Beata: Conhecimento é muito melhor do que dinheiro.
Avareza: Talvez seja o “certo” pensar assim, mas veja bem: as pessoas estudam com o único intuito de arranjar um emprego. Elas querem um emprego para ganhar dinheiro. Elas querem dinheiro, não conhecimento. O conhecimento é uma ferramenta para conseguir dinheiro. As pessoas, menina, se casam por dinheiro, se traem por dinheiro. Hoje, pregam o que amam. Depois de se tornarem avaros, elas procuram o que lhes serve. Quantos músicos brilhantes não traíram seus princípios iniciais por dinheiro?
Pecador: Isso sou forçado a concordar, tem músico que fazia música boa e, de repente, começou a cantar música só com ritmo, pro povo só dançar, só se esbaldar e nada de escutar de verdade. Só pra vender.
Avareza: Vê? Ele entende o que digo. As pessoas não respeitam nem ao próximo, fazem de tudo por dinheiro, até roubar. Elas exploram até mesmo os pecados dos outros. Fazem comércio em cima da gula, fazem comércio em cima da vaidade, vendem produtos contra ira. Sim, ninguém quer saber do que é certo ou errado. Eles querem dinheiro. A vaidade e a ira são as mais exploradas. Sou tão forte, que o capitalismo acabou com o socialismo simplesmente por existir.
Beata: Não concordo!
Avareza: Não concorda? Então argumente! Diga-me, o que o capitalismo fez para acabar com o socialismo? Ande na Alemanha, veja a diferença dos dois mundos que o socialismo e o capitalismo criaram. Não adianta. Disseram que o capitalismo iria sucumbir, mas como pode ele sucumbir, se eu estou aqui?
Beata: Mas é por você que ele vai sucumbir. O argumento é que se o acúmulo de riquezas tornar impossível a exploração, o capitalismo sucumbe. Se só existirem pessoas ricas demais e pobres demais, não haverá como explorar as pobres demais.
Avareza: Está vendo? Vê como realmente estou no mundo inteiro? Eu sabia que entenderia se você trouxesse isso à tona e não eu. Para que o acúmulo de riquezas continuasse sendo possível, inventaram o FMI, o Banco Mundial e o empréstimo (Ri maliciosamente). O que eles querem é dinheiro, não evolução.
Pecador: A lei do mais forte para a natureza humana é a lei do mais rico.
Avareza: Ótima colocação (sorri demonstrando um inegável prazer).
O tempo bate seu cajado. Avareza parte e entra pomposa e ilustre Vaidade.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
A Gula
Gula: Hum... graças a Ira, temos agora dois juizes. Eu sou a Gula. Vocês sabem o que isso realmente significa? É aquele desejo incontrolável e irracional que nasce ninguém sabe de onde. Eu sou o consumismo. Você sabe do que estou falando, não é rapaz? Sabe o que é trocar de celular a cada dois meses e comer tudo o que vê pela frente. A sua sorte é que pratica muitos esportes. Mas isso já é coisa da vaidade.
Beata: Ou talvez ele não seja guloso o suficiente.
Gula: Está carente de atenção? Também é um tipo de gula, sabia? Querer sempre mais e mais atenção. Essa foi uma das minhas principais marcas para este século. As pessoas inventaram de tudo para conseguir atenção. O mundo virtual propiciou esse desejo de forma brilhante. Sites e programas que expõem a vida e os pensamentos das pessoas. Com que objetivo? Se relacionar? Gula. Gula de atenção. Disso você entende, não é pequena?
Beata: Não sei do que está falando (diz ela séria).
Gula: Mas esta foi somente a principal forma. Olhem ao seu redor. Os centros de compras estão cada vez mais lotados. A validade de algo é a moda. Se muda a moda, hora de trocar de produto. Ficar com algo ultrapassado só porque ainda é útil? Não. Hora de consumir. Hora de comprar um brinco novo, uma roupa nova, uma comida diferente. Ah! Comida... eu adoro comida! Tanto que vocês, pobres mortais, pensam que sou a gula da comida e somente dela. Não. Sou mais do que isso.
Pecador: Essa conversa me deixou com fome.
Gula: Deixou mesmo? Tem certeza que só não quer sentir aquele sabor delicioso de uma carne mal passada servida em um espeto e o garçom cortando lentamente aquele pedaço que vai caindo no prato? E depois de provar vários tipos de carne, comer uma deliciosa sobremesa que talvez nem caiba mais no estômago. Como dispensar aquele sorvete? Aquele pudim? Aquela torta de chocolate...hum....
Beata: Você quer somente nos tentar.
Gula: Tentar? Pense um pouco mais, beata! O que são as multinacionais senão a minha voz? O consumismo! Sou de fato, inimiga da Avareza e, ao mesmo tempo, sua melhor amiga. As pessoas preferem comer comidas rápidas e gordurosas do que cuidar da própria saúde, e por quê? Por gula. O número de obesos no mundo aumentou incrivelmente. Para as pessoas que compram demais foi inventado um tratamento no que chamam de psicologia e que acha que será mais eficiente em nos combater do que foi a igreja no passado, porém caríssimos, ambos falharão. O pecado já está na natureza do ser humano, nem mesmo o mais puro dos homens escapa consegue resistir ao nosso charme.
Pecador: Isso me fez pensa que inentaram o rodízio por causa da gula e quase todos os restaurantes especializados atualmente possuem rodízio.
Beata: Ou talvez ele não seja guloso o suficiente.
Gula: Está carente de atenção? Também é um tipo de gula, sabia? Querer sempre mais e mais atenção. Essa foi uma das minhas principais marcas para este século. As pessoas inventaram de tudo para conseguir atenção. O mundo virtual propiciou esse desejo de forma brilhante. Sites e programas que expõem a vida e os pensamentos das pessoas. Com que objetivo? Se relacionar? Gula. Gula de atenção. Disso você entende, não é pequena?
Beata: Não sei do que está falando (diz ela séria).
Gula: Mas esta foi somente a principal forma. Olhem ao seu redor. Os centros de compras estão cada vez mais lotados. A validade de algo é a moda. Se muda a moda, hora de trocar de produto. Ficar com algo ultrapassado só porque ainda é útil? Não. Hora de consumir. Hora de comprar um brinco novo, uma roupa nova, uma comida diferente. Ah! Comida... eu adoro comida! Tanto que vocês, pobres mortais, pensam que sou a gula da comida e somente dela. Não. Sou mais do que isso.
Pecador: Essa conversa me deixou com fome.
Gula: Deixou mesmo? Tem certeza que só não quer sentir aquele sabor delicioso de uma carne mal passada servida em um espeto e o garçom cortando lentamente aquele pedaço que vai caindo no prato? E depois de provar vários tipos de carne, comer uma deliciosa sobremesa que talvez nem caiba mais no estômago. Como dispensar aquele sorvete? Aquele pudim? Aquela torta de chocolate...hum....
Beata: Você quer somente nos tentar.
Gula: Tentar? Pense um pouco mais, beata! O que são as multinacionais senão a minha voz? O consumismo! Sou de fato, inimiga da Avareza e, ao mesmo tempo, sua melhor amiga. As pessoas preferem comer comidas rápidas e gordurosas do que cuidar da própria saúde, e por quê? Por gula. O número de obesos no mundo aumentou incrivelmente. Para as pessoas que compram demais foi inventado um tratamento no que chamam de psicologia e que acha que será mais eficiente em nos combater do que foi a igreja no passado, porém caríssimos, ambos falharão. O pecado já está na natureza do ser humano, nem mesmo o mais puro dos homens escapa consegue resistir ao nosso charme.
Pecador: Isso me fez pensa que inentaram o rodízio por causa da gula e quase todos os restaurantes especializados atualmente possuem rodízio.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
A Ira (Parte II)

Ira: (Ri) Ah! Sinto cheiro de pecado vindo de você (diz bem pertinho de alguém da platéia)... hum, sei o que andou fazendo, viu? Podia ser um juiz bem melhor do que aquela trouxa lá em cima (Ri apontando pra alguém)... Ah! Você sabe o que é pecar! Acho que vou escolher você (fala com outro)... Você só falta levantar a placa, peque, não é? (com outro membro da platéia)... Querida, ainda bem que você não nasceu no tempo da inquisição. Teriam feito três fogueiras pra você. (Ri de uma mulher na platéia) ... Hum, você entende do assunto! (Fala pra alguém)... Quando você vai construir um altar pra ( Fala o nome de um pecado para alguém na platéia).......
A Ira, ao chegar ao fim de todos, olha para o caminho que veio.
Ira: (gritando) Nunca vi tanto pecador junto! Como vou escolher um? Como vou saber o que melhor nos entende? É pecador demais! Vocês nunca tiveram catecismo ou besteira parecida não?! Daqui a pouco será impossível escolher um de nós porque vocês já estão corrompidos demais! Se duvidar, um dia me deparo com alguém que seja mais ira do que eu. Vou chamar qualquer um. Você (Aponta para o Pecador)! Passa logo pra lá.
Pecador: Não grite comigo (gritando).
Ira: Vocês humanos reclamam muito. Passe logo!
O Pecador para a certa distância da Beata. A Ira examina-o.
Pecador: Por que eu? (zangado)
Ira: Por causa do seu histórico de vida. Porque você “não leva desaforo pra casa”, porque você já machucou as mãos batendo em uma parede de tanta raiva. Porque você já jogou um carro contra conhecidos porque estava com ciúmes. Porque você já queimou tudo que pudesse lembrar quem você amou por pura raiva. Porque você entende o que é querer esganar alguém. Porque você entende o que é a vingança e admira o seu sabor. Por isso, escolhi você. Porque sei que reconhece o meu valor.
Pecador: O que quer jogando tudo isso na minha cara?
Ira: Quero que grite ao mundo o quanto sou poderoso! Quero que mostre a todos quantas coisas são feitas em meu nome, quanto sangue já jorrou porque eu existo. Não estou jogando as coisas na sua cara, estou elogiando sua ira. Você já sentiu ira até contra si... muitos não suportam e se matam, mas você não, quebrou seu quarto inteiro, mudou de personalidade, mas se manteve amante da vida e dos prazeres que são oferecidos por nós. Imagine, algumas pessoas traem por serem minhas, algumas pessoas entregam seu corpo a quem nem querem tanto por mim. Há tantas formas de Ira....
Beata: Sim, muitas formas e nenhuma delas torna o mundo melhor.
Ira: Tornar o mundo melhor? Eu sou o sentimento a flor da pele. Eu estou na história inteira. A famosa guerra de Tróia ocorreu por minha causa. Escute este homem. Escute-o dizer como ele odiou quando o irmão dele riscou todo o dever de casa dele quando ele tinha catorze anos, ou como ele odiou perder a final do campeonato inter-classe no ano seguinte.
Beata: Não quero saber de nada ( grita ela, Ira sorri).
Ira: verdade? Sim, verdade. Eu lembro quando sua prima empurrou você porque você disse que ela estava errada e sua mãe bateu em você... sim, eu lembro, lembro como odiou todas elas. Lembra-se do que sentiu? Sentiu a mim. Agora, diga, não sou o Pecado soberano?
Tempo bate seu cajado, é hora do novo pecado entrar. Ira sai, entra a Gula.
A Gula entra com um delicioso quitute na mão, passa próximo aos juizes e para na frente deles.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Tempo: Toda virada de século, tentamos decidir através do diálogo. Toda virada de século, penso que todos vocês são o Orgulho. Toda virada de século, é escolhido um juiz para decidir quem foi o Pecado Soberano. Eu escolhi esta jovem. Ela conhece todas as obras sobre vocês e lê jornais, livros e revistas. Argumentem. Deliberem! (Sai de cena)
Ira: Eu começo! Não vou ficar ouvindo vocês falando e falando e falando.
Inveja: Eu sempre quis começar.
Gula: É bom que posso comer um pouco mais, e pensar um pouco mais.
Orgulho: Os primeiros a começar sempre sofrem mais, no fim, ela nem lembrará do primeiro.
Luxúria: Concordo, Orgulho. Apesar de que se eu fosse a primeira, a deixaria abalado pelo resto da eternidade.
Avareza: Acho que você tem que andar menos com o Orgulho, Luxúria. Vamos logo com isso. Tempo é dinheiro.
Seis pecados saem, ficando somente a Ira e a Beata, completamente assustada, no centro do cenário.
Ira: (Examina a moça assustada) Está se sentindo diferente, jovem?
Beata: Quem é você?
Ira: Sou a Ira. Conhece-me?
Beata: Não, não. A Ira nos impede de raciocinar, de fazer boas escolhas. A Ira nos afasta das pessoas, não posso conhecer você (fecha os olhos).
Ira: Não pode me conhecer? E o que acha que foi aquele sentimento quando a professora acusou você de estar “pescando”? Ou quando descobriu que seu pai traía sua mãe?
Beata: Não fiquei irada (já um pouco alterada, mas sem falar alto).
Ira: Acha que ‘ira’ é gritar, berrar, quebrar, matar? Até encolher-se no canto de uma sala e chorar por horas seguidas é uma forma de ira. Chora porque a quer recolher dentro de você, quer domá-la. Quer rejeitar esse desejo de matar, esganar, trucidar que vem dentro de você. Quer fingir que não seria mais feliz se pudesse vingar-se. Você grita por dentro.
Beata: Saia daqui! Não quero ouvir você.
Ira: Não quer e não pode. Sabe que o que digo é verdade. Sabe bem que estou espalhada por aí, reinando. Pense naqueles adolescentes que se rebelam contra os pais. Até mesmo a rebeldia sem causa. A necessidade de atenção. As drogas. Oh! O que são as drogas senão ação minha? Ira contra o mundo ou contra alguma coisa qualquer.
Beata: Eu não quero ouvir (Mãos nos ouvidos e olhos apertados).
Ira: Sabe bem do que falo. Sabe que as pessoas bebem e matam por mim!!!! Esquecer... esquecer... lembrar é uma das poucas coisas úteis que o homem faz e ele prefere esquecer. Sabe por quê? Porque desejar esquecer de tudo é dos meus sintomas! Quem nunca tiver sentido Ira, que atire a primeira pedra.
Beata: Pai nosso que está no céu...
Ira: Você está rezando! (grita) Chega! Eu vou atrás de alguém que entenda o que é PECADO. Alguém que saiba o que é gritar, berrar e até amar!!! Porque depois que se tem um coração partido, sou eu que apareço para explicar o ocorrido (Riso)
A Ira “desce” olhando pra cada membro da platéia. Sinto arrepios.
Ira: Eu começo! Não vou ficar ouvindo vocês falando e falando e falando.
Inveja: Eu sempre quis começar.
Gula: É bom que posso comer um pouco mais, e pensar um pouco mais.
Orgulho: Os primeiros a começar sempre sofrem mais, no fim, ela nem lembrará do primeiro.
Luxúria: Concordo, Orgulho. Apesar de que se eu fosse a primeira, a deixaria abalado pelo resto da eternidade.
Avareza: Acho que você tem que andar menos com o Orgulho, Luxúria. Vamos logo com isso. Tempo é dinheiro.
Seis pecados saem, ficando somente a Ira e a Beata, completamente assustada, no centro do cenário.
Ira: (Examina a moça assustada) Está se sentindo diferente, jovem?
Beata: Quem é você?
Ira: Sou a Ira. Conhece-me?
Beata: Não, não. A Ira nos impede de raciocinar, de fazer boas escolhas. A Ira nos afasta das pessoas, não posso conhecer você (fecha os olhos).
Ira: Não pode me conhecer? E o que acha que foi aquele sentimento quando a professora acusou você de estar “pescando”? Ou quando descobriu que seu pai traía sua mãe?
Beata: Não fiquei irada (já um pouco alterada, mas sem falar alto).
Ira: Acha que ‘ira’ é gritar, berrar, quebrar, matar? Até encolher-se no canto de uma sala e chorar por horas seguidas é uma forma de ira. Chora porque a quer recolher dentro de você, quer domá-la. Quer rejeitar esse desejo de matar, esganar, trucidar que vem dentro de você. Quer fingir que não seria mais feliz se pudesse vingar-se. Você grita por dentro.
Beata: Saia daqui! Não quero ouvir você.
Ira: Não quer e não pode. Sabe que o que digo é verdade. Sabe bem que estou espalhada por aí, reinando. Pense naqueles adolescentes que se rebelam contra os pais. Até mesmo a rebeldia sem causa. A necessidade de atenção. As drogas. Oh! O que são as drogas senão ação minha? Ira contra o mundo ou contra alguma coisa qualquer.
Beata: Eu não quero ouvir (Mãos nos ouvidos e olhos apertados).
Ira: Sabe bem do que falo. Sabe que as pessoas bebem e matam por mim!!!! Esquecer... esquecer... lembrar é uma das poucas coisas úteis que o homem faz e ele prefere esquecer. Sabe por quê? Porque desejar esquecer de tudo é dos meus sintomas! Quem nunca tiver sentido Ira, que atire a primeira pedra.
Beata: Pai nosso que está no céu...
Ira: Você está rezando! (grita) Chega! Eu vou atrás de alguém que entenda o que é PECADO. Alguém que saiba o que é gritar, berrar e até amar!!! Porque depois que se tem um coração partido, sou eu que apareço para explicar o ocorrido (Riso)
A Ira “desce” olhando pra cada membro da platéia. Sinto arrepios.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Ira: Que demora!!!!
Orgulho: Você sempre resmunga, devia ser mais como eu, paciente, elegante, compreensivo.
Tempo: Chegou o momento! É hora de reconhecer o Pecado que reinou soberanamente sobre os mortais, esse século.
Orgulho: Sim, o século da Vaidade. Espelhos por todos os lugares. A Avareza fez-se às minhas custas, pois o Capitalismo só vive porque eu existo. Orgulho, Vaidade. Guerras e mais guerras são travadas em meu nome. Nem creio que haja necessidade de discussão.
Ira: Claro! (grita) Por que vamos discutir quem é o Pecado de destaque em um século que a palavra guerra não é surpresa. Que pais matam filhos, que filhos matam pais, que irmãos matam irmãos, que o assassinato tornou-se somente um dado estatístico e um assunto a mais para palestras de psicólogos e psiquiatras. Mas não, tudo isso foi em nome do Orgulho e não da Ira, não é?
Luxúria: (Ri) Orgulho? Ira? Sim, vocês passearam pelo mundo. Eu o embelezei, reinei sobre ele, brinquei com ele e fiz dele meu objeto predileto. Transformei a mente de cada humano em minha oficina. Banalizei o corpo humano, espalhei a nudez e libertinagem em cada canto da terra. Oficializei o desejo como arte, a sexualidade como qualidade. Quando se vai elogiar alguém, o que primeiro se diz? Que é inteligente? Bondoso? Educado? Feliz? Simpático? Não, se diz que é bonito e caso não seja, mas seja sexy, tenha aquele algo mais... se compensa a falta de beleza. Por que? Porque eu sou amada, porque eu sou mais importante do que todos vocês.
Orgulho: Mais importante do que nós? Escute o que diz e volte a si... somos os Sete Pecados Capitais. Foram escritos livros e livros sobre nós. Mas sobre mim, minha cara, ocupo estantes e estantes. Sou a auto-biografia, o auto-retrato, o narcisismo puro. A Cirurgia plástica é um culto à minha existência e eu pergunto, quantas pessoas não fizeram ou gostariam de fazer uma cirurgia? As lentes que mudam a cor dos olhos, as tintas para cabelos, a maquiagem inteira é um culto a mim.
Gula: É mas o homem vive para comer. Em alguns países chega a 70% o número de obesos e as pessoas não conseguem emagrecer, só engordar. A felicidade começa pela boca, desde que se é um bebê. Reinei este século. Temperos, restaurantes... colesterol, diabetes e disfunções alimentares tiveram que ser combatidas como se fossem epidemias por minha causa. Enquanto a Luxúria se gaba de como falam dela, parecendo até mais o Orgulho falando, eu sou o manto de adultos e crianças, e ela só atinge adultos... Sem contar que vou além do que o garfo manda. Eu sou aquele desejo incontrolável de possuir algo... os psicólogos até atribuem a minha existência em algumas pessoas como patologia, tipo o consumismo que se tornou cada vez mais comum nesse mundinho capitalista.
Avareza: Acho que estão discutindo muito por algo simples. A Ira disse que as guerras foram por causa dela, mas não é verdade. A Ira é inimiga da razão, eu sou amante. E para uma guerra é necessária muita razão. As guerras foram feitas em meu nome. Porque dominar um país gera lucro. Pessoas suportam gente que elas odeiam por mim controlando sua Ira, porque lhes é conveniente. Eu giro o mundo. As pessoas estudam para conseguir dinheiro, as pessoas casam por dinheiro. Ser bem sucedido nos negócios é tão importante para essa civilização pecaminosa quanto ser bonito, quanto ser sexy. Eu estou em primeiro plano. Eu sou economia, política, religião. Tudo gira ao meu redor. O século foi inegavelmente meu.
Inveja: Falam todos tão bem, que quase me convencem. Queria eu falar assim. Sou tão discreta, ninguém me nota. Na verdade, muitas vezes me escondo. Diferente do Orgulho. Mas eu, eu mais do que a Gula, mais do que a Luxúria, estou em todos. Aquele bebezinho que toma do outro o brinquedo. Aquela mulher sentada no degrau escada vendo o cara interessante passar de braços dados com outra. Aquela amiga olhando quase com água na boca o vestido dos seus sonhos entrar no corpo perfeito da outra mulher. Aquele homem que vê a namorada nada briguenta do colega de trabalho. Aquele trabalhador que vê o outro ser premiado, promovido. A Igreja já não tem tanto poder como antes e sem ela, minha maior inimiga, porque lutar contra mim? Ninguém mais luta contra mim, deixam-me lá, saboreando de seus pensamentos, de seus reais desejos, até ajudando a criar piadinhas
Preguiça: Acho que devemos escolher um juiz.
Tempo: Já o fiz (Todos o olham). Entre.
Entra em cena a Beata.
Orgulho: Você sempre resmunga, devia ser mais como eu, paciente, elegante, compreensivo.
Tempo: Chegou o momento! É hora de reconhecer o Pecado que reinou soberanamente sobre os mortais, esse século.
Orgulho: Sim, o século da Vaidade. Espelhos por todos os lugares. A Avareza fez-se às minhas custas, pois o Capitalismo só vive porque eu existo. Orgulho, Vaidade. Guerras e mais guerras são travadas em meu nome. Nem creio que haja necessidade de discussão.
Ira: Claro! (grita) Por que vamos discutir quem é o Pecado de destaque em um século que a palavra guerra não é surpresa. Que pais matam filhos, que filhos matam pais, que irmãos matam irmãos, que o assassinato tornou-se somente um dado estatístico e um assunto a mais para palestras de psicólogos e psiquiatras. Mas não, tudo isso foi em nome do Orgulho e não da Ira, não é?
Luxúria: (Ri) Orgulho? Ira? Sim, vocês passearam pelo mundo. Eu o embelezei, reinei sobre ele, brinquei com ele e fiz dele meu objeto predileto. Transformei a mente de cada humano em minha oficina. Banalizei o corpo humano, espalhei a nudez e libertinagem em cada canto da terra. Oficializei o desejo como arte, a sexualidade como qualidade. Quando se vai elogiar alguém, o que primeiro se diz? Que é inteligente? Bondoso? Educado? Feliz? Simpático? Não, se diz que é bonito e caso não seja, mas seja sexy, tenha aquele algo mais... se compensa a falta de beleza. Por que? Porque eu sou amada, porque eu sou mais importante do que todos vocês.
Orgulho: Mais importante do que nós? Escute o que diz e volte a si... somos os Sete Pecados Capitais. Foram escritos livros e livros sobre nós. Mas sobre mim, minha cara, ocupo estantes e estantes. Sou a auto-biografia, o auto-retrato, o narcisismo puro. A Cirurgia plástica é um culto à minha existência e eu pergunto, quantas pessoas não fizeram ou gostariam de fazer uma cirurgia? As lentes que mudam a cor dos olhos, as tintas para cabelos, a maquiagem inteira é um culto a mim.
Gula: É mas o homem vive para comer. Em alguns países chega a 70% o número de obesos e as pessoas não conseguem emagrecer, só engordar. A felicidade começa pela boca, desde que se é um bebê. Reinei este século. Temperos, restaurantes... colesterol, diabetes e disfunções alimentares tiveram que ser combatidas como se fossem epidemias por minha causa. Enquanto a Luxúria se gaba de como falam dela, parecendo até mais o Orgulho falando, eu sou o manto de adultos e crianças, e ela só atinge adultos... Sem contar que vou além do que o garfo manda. Eu sou aquele desejo incontrolável de possuir algo... os psicólogos até atribuem a minha existência em algumas pessoas como patologia, tipo o consumismo que se tornou cada vez mais comum nesse mundinho capitalista.
Avareza: Acho que estão discutindo muito por algo simples. A Ira disse que as guerras foram por causa dela, mas não é verdade. A Ira é inimiga da razão, eu sou amante. E para uma guerra é necessária muita razão. As guerras foram feitas em meu nome. Porque dominar um país gera lucro. Pessoas suportam gente que elas odeiam por mim controlando sua Ira, porque lhes é conveniente. Eu giro o mundo. As pessoas estudam para conseguir dinheiro, as pessoas casam por dinheiro. Ser bem sucedido nos negócios é tão importante para essa civilização pecaminosa quanto ser bonito, quanto ser sexy. Eu estou em primeiro plano. Eu sou economia, política, religião. Tudo gira ao meu redor. O século foi inegavelmente meu.
Inveja: Falam todos tão bem, que quase me convencem. Queria eu falar assim. Sou tão discreta, ninguém me nota. Na verdade, muitas vezes me escondo. Diferente do Orgulho. Mas eu, eu mais do que a Gula, mais do que a Luxúria, estou em todos. Aquele bebezinho que toma do outro o brinquedo. Aquela mulher sentada no degrau escada vendo o cara interessante passar de braços dados com outra. Aquela amiga olhando quase com água na boca o vestido dos seus sonhos entrar no corpo perfeito da outra mulher. Aquele homem que vê a namorada nada briguenta do colega de trabalho. Aquele trabalhador que vê o outro ser premiado, promovido. A Igreja já não tem tanto poder como antes e sem ela, minha maior inimiga, porque lutar contra mim? Ninguém mais luta contra mim, deixam-me lá, saboreando de seus pensamentos, de seus reais desejos, até ajudando a criar piadinhas
Preguiça: Acho que devemos escolher um juiz.
Tempo: Já o fiz (Todos o olham). Entre.
Entra em cena a Beata.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Sete réus - Prólogo
Toda virada de século, uma estranha peça acontece em algum lugar do mundo.
Na realidade, é uma eleição, um julgamento, disfarçado para que os mortais, maiores interessados, possam assistir e permanecer em sua ignorância costumeira.
Como sou um pobre mortal e meu tempo de vida não me permitiu assistir a todas as peças, limito-me, portanto a contar-lhes a eleição que assisti.
O cenário era incrivelmente simples e assim permaneceria ao longo de toda a peça.
Havia uma mesa comprida e vazia, com sete cadeiras e um pouco mais afastado dela, em uma posição estratégica para que todos ou quase todos na mesa pudessem ser vistos, havia um divã. Ao fundo um relógio antigo, daqueles que possuem um pêndulo e que badalou pontualmente a meia noite.
Uma pausa. Reparem no estranho horário para a realização de uma peça. Meia noite de uma virada de século. Obviamente não havia intenção de se lucrar com tal evento, muito menos no Brasil. Percebam também que o público não era do mais envolvido. Havia casais em situações constrangedoras (aparentemente não para eles), drogados, mendigos que aproveitaram o espaço para dormir ou até conhecer uma peça de teatro, jovens fugindo do “mesmo”, gente depressiva, e outras tribos que não lembro no momento.
Assim como o relógio, pontual três homens entraram no palco de pontos diferentes, o que me levantou a primeira suspeita sobre a peça. Em seguida entraram mais três mulheres, mas não concomitantemente.
Ao soar da última badalada, um homem que muito me lembrou a morte do conto dos fantasmas do natal, entrou silenciosamente e ficou de pé diante da cadeira da ponta da mesa. Seria ele o personagem que viria explicar a todos do que se tratava o enredo da peça:
A cada virada de século escolhemos o que melhor representou seu papel, o que foi escolhido pela humanidade para ser o pecado mais cometido. Cada um apresentará sua defesa, seus argumentos e eu, o Tempo, o Juiz de todos os males, escolherei meu campeão.
..................................................................................
Nota: Cortei algumas partes do texto para não ficar tão longo. Eu tenho esse texto há muito tempo, desde o primeiro ano de CEFET, mas ele ainda não tem fim. vamos ver se agora ele ganha um final.
Motivo da ausência: Estava sem computador. Desculpaí, galera!
Na realidade, é uma eleição, um julgamento, disfarçado para que os mortais, maiores interessados, possam assistir e permanecer em sua ignorância costumeira.
Como sou um pobre mortal e meu tempo de vida não me permitiu assistir a todas as peças, limito-me, portanto a contar-lhes a eleição que assisti.
O cenário era incrivelmente simples e assim permaneceria ao longo de toda a peça.
Havia uma mesa comprida e vazia, com sete cadeiras e um pouco mais afastado dela, em uma posição estratégica para que todos ou quase todos na mesa pudessem ser vistos, havia um divã. Ao fundo um relógio antigo, daqueles que possuem um pêndulo e que badalou pontualmente a meia noite.
Uma pausa. Reparem no estranho horário para a realização de uma peça. Meia noite de uma virada de século. Obviamente não havia intenção de se lucrar com tal evento, muito menos no Brasil. Percebam também que o público não era do mais envolvido. Havia casais em situações constrangedoras (aparentemente não para eles), drogados, mendigos que aproveitaram o espaço para dormir ou até conhecer uma peça de teatro, jovens fugindo do “mesmo”, gente depressiva, e outras tribos que não lembro no momento.
Assim como o relógio, pontual três homens entraram no palco de pontos diferentes, o que me levantou a primeira suspeita sobre a peça. Em seguida entraram mais três mulheres, mas não concomitantemente.
Ao soar da última badalada, um homem que muito me lembrou a morte do conto dos fantasmas do natal, entrou silenciosamente e ficou de pé diante da cadeira da ponta da mesa. Seria ele o personagem que viria explicar a todos do que se tratava o enredo da peça:
A cada virada de século escolhemos o que melhor representou seu papel, o que foi escolhido pela humanidade para ser o pecado mais cometido. Cada um apresentará sua defesa, seus argumentos e eu, o Tempo, o Juiz de todos os males, escolherei meu campeão.
..................................................................................
Nota: Cortei algumas partes do texto para não ficar tão longo. Eu tenho esse texto há muito tempo, desde o primeiro ano de CEFET, mas ele ainda não tem fim. vamos ver se agora ele ganha um final.
Motivo da ausência: Estava sem computador. Desculpaí, galera!
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Desejo Impróprio
Um desejo impróprio
De te ver sorrir pelos meus lábios
De descobrir teu corpo
Com o toque de um artista
Modelando sua obra-prima.
Tuas mãos presas ao meu corpo
Decorando minhas curvas
Como um primário, a tabuada
Tua respiração compondo a música
Que definirá os passos da minha dança.
E estas pernas entrelaçadas
Este tocar de peles
Que rompe todo e qualquer atrito
Não há razão e ninguém afirma coração
Não há distância, mas muitos momentos.
O beijo é combustível
Desse ardor que sobe do ventre ao peito
As orelhas sem palavras
Mas com lábios para dar a mensagem
Que vai ao pescoço torcer a razão.
As partes do corpo têm novas funções
Mudam-se as raízes
Muda-se a questão
Segura o grito
Agarra o olhar.
Meu corpo veste o teu
Escondendo-se do pudor.
Aumentando o fervor.
Teu corpo se aquece do meu,
Sem equilíbrio, exotermismo.
As mãos sobem pela cintura.
A maciez do meu corpo
Contra a rigidez do teu desejo
O contorno dos meus seios
E o limite dos teus conceitos.
Um olhar pela janela
Uma porta aberta
De te ver sorrir pelos meus lábios
De descobrir teu corpo
Com o toque de um artista
Modelando sua obra-prima.
Tuas mãos presas ao meu corpo
Decorando minhas curvas
Como um primário, a tabuada
Tua respiração compondo a música
Que definirá os passos da minha dança.
E estas pernas entrelaçadas
Este tocar de peles
Que rompe todo e qualquer atrito
Não há razão e ninguém afirma coração
Não há distância, mas muitos momentos.
O beijo é combustível
Desse ardor que sobe do ventre ao peito
As orelhas sem palavras
Mas com lábios para dar a mensagem
Que vai ao pescoço torcer a razão.
As partes do corpo têm novas funções
Mudam-se as raízes
Muda-se a questão
Segura o grito
Agarra o olhar.
Meu corpo veste o teu
Escondendo-se do pudor.
Aumentando o fervor.
Teu corpo se aquece do meu,
Sem equilíbrio, exotermismo.
As mãos sobem pela cintura.
A maciez do meu corpo
Contra a rigidez do teu desejo
O contorno dos meus seios
E o limite dos teus conceitos.
Um olhar pela janela
Uma porta aberta
Assinar:
Postagens (Atom)
